Ela Não Recomeçou por Coragem. Recomeçou por Amor.
Existem mulheres que entram para o mundo da beleza por vaidade.
Outras, por sonho.
Mas existem aquelas que entram porque, sem perceber, estavam tentando salvar partes de si mesmas enquanto cuidavam do mundo inteiro ao redor.
Foi assim com uma mulher nascida em Ijuí, mãe, esposa, filha única e, acima de tudo, mãe da Isabella.
Aos 19 anos, enquanto cursava faculdade de Biologia, ela já carregava dentro de si um amor silencioso pela maquiagem. Desde criança, aquilo brilhava nos seus olhos. E as pessoas percebiam.
“Você precisa fazer Estética.”
Talvez ninguém imaginasse que aquela frase simples mudaria completamente o rumo da sua vida.
Depois de quatro semestres, ela trocou a Biologia pela Estética. E ali, finalmente, se encontrou.
Começou atendendo clientes, se profissionalizando em maquiagem, sobrancelhas e limpeza de pele. Pouco tempo depois, já estava trabalhando em salões renomados da sua cidade. A carreira crescia rápido. O talento era impossível de esconder.
Mas a vida tinha outros planos.

Por influência de colegas, entrou no universo dos cílios. E odiou.
O plano era outro. Terminou a faculdade, iniciou uma pós-graduação em Biomedicina e queria trabalhar com injetáveis. Sonhava em deixar os cílios para trás. Só que existe algo muito forte quando o propósito encontra alguém, mesmo quando essa pessoa ainda não percebeu.
Ela era perfeccionista demais para fazer qualquer coisa pela metade.
Foi estudando. Se especializando. Aprendendo mais. E mais.
Quando percebeu, já eram 16 especializações em cílios.
E aquilo que ela dizia odiar se transformou em algo que as clientes simplesmente não conseguiam abandonar.
Toda vez que falava em parar, as clientes reclamavam, insistiam, quase imploravam para que ela continuasse.
Foi aí que entendeu uma das maiores verdades da sua trajetória:
Ela nunca escolheu ser lash designer.
Foi a profissão que escolheu ela.
Mas enquanto a carreira crescia, a vida pessoal exigia forças que poucas pessoas suportariam.
Sua filha mais velha, Isabella, enfrenta uma realidade extremamente delicada: autismo, paralisia cerebral, transplante de medula óssea e três cardiopatias já corrigidas.
E mesmo assim, ela continuava.
Entre atendimentos, estudos, casa, casamento e os cuidados intensos com a filha, ela tentava equilibrar um mundo inteiro nas próprias mãos.
Até que precisou parar a pós-graduação.
Não por falta de sonho.
Mas porque algumas mães precisam escolher sobreviver antes de continuar sonhando.

Ainda assim, ela nunca deixou de buscar conhecimento. Também se especializou em massoterapia, mesmo sabendo que seu coração sempre pertenceria à maquiagem e aos cílios.
Com o tempo, se tornou responsável pelo setor de estética do salão onde trabalhava. Liderava nove colaboradoras. Era a realização de um sonho.
Mas novamente, a vida mudaria tudo.
Sua mãe estava com câncer.
Filha única, ela sabia que precisava fazer uma escolha.
Então desistiu do espaço no salão, reformou a própria casa e criou um studio dentro dela para poder levar a mãe para morar consigo e cuidar dela até o fim.
E ali aconteceu algo que ela jamais esqueceu.
Ela acreditava que perderia as clientes. Afinal, sua casa ficava longe do centro e já não existia mais a estrutura do salão renomado.
Mas o que aconteceu foi o contrário.
As clientes foram com ela.
Todas.
Ou quase todas.
Ela perdeu apenas uma.
Porque quando o trabalho é feito com verdade, as pessoas não seguem apenas um espaço. Elas seguem quem toca suas vidas.
Seis meses depois, sua mãe faleceu.
E, ao mesmo tempo, ela estava grávida da segunda filha.
Enquanto enfrentava o luto, continuava trabalhando até os últimos dias da gestação. E voltou a atender apenas 27 dias após o nascimento da bebê.
Com a filha pequena ao lado. Assim como fez com Isabella.
Sem rede de apoio.
Sem pausa.
Sem tempo para desmoronar.

Foi nesse período dentro de casa que começou a se dedicar aos cabelos e penteados. Entendeu que queria oferecer às mulheres a experiência de sair prontas, completas, se sentindo bonitas de novo.
Porque, no fundo, ela sabia exatamente o quanto uma mulher pode esquecer de si mesma enquanto tenta sobreviver.
Quando a bebê completou seis meses, ela decidiu expandir novamente.
Abriu um novo studio.
E deu certo.
Muito certo.
Já era conhecida na cidade. Tinha clientes importantes, agenda cheia, reconhecimento profissional e uma carreira sólida construída com anos de esforço.
Mas então veio a dor mais difícil da sua vida.
Isabella começou a ser negligenciada.
Na escola.
Na saúde.
Na vida.
Enquanto a filha regredia, ela lutava contra um sistema cansativo, consultas desmarcadas, viagens exaustivas de mais de seis horas até Porto Alegre para conseguir atendimento especializado.
Três vezes por mês.
Às vezes chegavam lá cansados apenas para ouvir que não haveria consulta.
A escola também trouxe feridas profundas. Situações tão graves que chegaram ao ponto de envolver polícia.
E uma mãe sente.
Mesmo antes de entender completamente a gravidade, o coração já sabe quando o filho está sofrendo.
Então veio a decisão que mudaria tudo.
Ela e o marido começaram a pesquisar cidades em Santa Catarina que oferecessem melhor qualidade de vida, saúde e educação para Isabella.
No final do ano passado, fizeram uma pesquisa simples no Google:
“Qual a melhor cidade de Santa Catarina para qualidade de vida?”
E apareceu Jaraguá do Sul.
Parecia loucura.
Eles tinham casa própria.
O marido ocupava um cargo importante.
Ela tinha uma carreira consolidada.
Clientes fiéis.
Nome conhecido.
Mas fizeram algo que só pais entendem:
Abriram mão de tudo pela filha.
Venderam tudo.
Deixaram tudo.

E no dia 25 de janeiro entraram no carro rumo ao desconhecido.
Hoje, olhando para trás, ela sorri emocionada ao dizer:
“Foi a melhor decisão da nossa vida.”
Em apenas três meses, Isabella evoluiu mais do que havia evoluído em um ano inteiro.
A escola mudou.
O atendimento mudou.
A qualidade de vida mudou.
E pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu paz.
Mas profissionalmente, o recomeço foi doloroso.
Ela entrou em negação. Disse que não queria mais atender. Pensou em abandonar tudo e trabalhar como CLT.
Até que a vida colocou pessoas certas no caminho.
Precisou comprar tudo novamente. Recomeçar literalmente do zero.
Sem clientes.
Sem nome.
Sem contatos.
Só com experiência, conhecimento e coragem.
Hoje, vivendo em Jaraguá do Sul, ela entende algo que talvez seja a definição da sua própria história:
Mudanças, começos e recomeços nunca são fáceis.
Mas talvez a beleza da vida esteja exatamente nisso.
Na capacidade de reconstruir tudo quantas vezes forem necessárias quando existe amor suficiente para continuar.

E no final, entre lágrimas, perdas, maternidade, profissão, luto, mudanças e recomeços, ela encontrou o que sempre procurou:
Propósito.Porque existem mulheres que trabalham com beleza.
E existem mulheres que transformam dor em força todos os dias enquanto seguem fazendo outras mulheres se sentirem bonitas também.
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